Hortas em favelas do RJ mudam a rotina e trazem ânimo aos moradores

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Globo Rural visitou os ‘bondes’ das hortas cariocas.
Ações juntam política pública, empresariado e os moradores.

Na gíria carioca, “bonde” é o grupo que se junta para fazer alguma ação. Um grupo de moradores de comunidades carentes do Rio de Janeiro está se juntando ao “bonde da horta”. Essa é uma união interessante entre ação de política pública, a iniciativa do empresariado e a vontade dos moradores.

O Morro do Leme fica atrás de onde sobe o bondinho do Pão de Açúcar, na ponta da orla carioca que abriga a famosa Copacabana e a Praia do Leme e cujos altos são ocupados pelas favelas Chapéu Mangueira e Babilônia. Cerca de 20 das seis mil pessoas que se espremem na encosta se renderam ao gostinho verde-terra de mexer com horta.

A paraibana Regina Schelly, que mora na Babilônia, acariocou-se e abraçou a novidade como quem se agarra a uma causa. “Eu já fiz 40 canteiros em pequenos espaços. Eu pergunto se a pessoa quer uma hortinha ou um canteiro pequeno”, diz.

Foi por influência da Regina que a Elizabeth Silva começou a cultivar em caixas de isopor em um cantinho do quintal, de onde tira mistura para as refeições da família.

Na favela Chapéu Mangueira também já há adeptos da horticultura de quintal. Pelo emaranhado de becos é possível chegar à casa do João Batista, que cultiva uma horta com vista para o mar. O maracujá pega sol de frente para a praia do Leme. Ele foi motorista de ônibus e fazia a linha Madureira-Central do Brasil. Aposentado, passa de quatro a seis horas por dia na hortinha da laje, onde há quatro anos só havia uma churrasqueira e um pé de acerola.

O aposentado fez vários cursos do Projeto Rio Sustentável, promovido por órgãos públicos e pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBEDS). Além da teoria, ele ganhou material para praticar. João Batista recebeu calhetões, que são telhas gigantes para cobrir galpões; sementes; ferramentas básicas necessárias à horticultura; e caixas para poder trabalhar sem usar agrotóxicos e adubos industriais.

Em uma caixa ele deposita cascas de frutas e restos de legumes e verduras. Tudo que era descartado passou a virar composto. Em outra caixa ele cria minhocas que vão melhorar e manter a terra que trazida do que resta de mata no morro.

João Batista não usa nenhum produto químico de loja agropecuária para combater lagartas ou pulgões. O produto caseiro pode ser um chá ou um batido de liquidificador de folhas de buganvília, também chamada de primavera ou maravilha. O aposentado, que nunca tinha trabalhado com plantas, cultiva na pequena laje cerca de 50 variedades de hortaliças.

O conceito por trás do projeto de fazer hortas em favelas no Rio de Janeiro é cultivar o simples. O entusiasmo com a horticultura alternativa de morro levou a Regina Schelly a uma nova experiência de gastronomia. Aproveitando recursos destinados a unidades pacificadas, ela desenvolveu o projeto Favela Orgânica, um serviço de buffet que atende a vários bairros do Rio de Janeiro.

Com o auxílio da cozinheira Mariana do Vale e da paisagista Monica Leão, Regina Schelly faz o salpicão de melancia com ervas da favela, um prato de rápido preparo indicado para os dias de calor. O prato nada mais é do que a casca da fruta bem ralada, misturada com cheiro-verde, alecrim, alfavaca, e temperada com azeite e molho de soja. Ela acrescenta pedacinhos crocantes da polpa vermelha. É uma salada meio salgadinha, meio docinha.

No site, Regina Schelly expõe fotos dos banquetes do Favela Orgânica. Entre outros famosos, ela já serviu o ator americano Harrison Ford que, na ocasião, provou justamente o salpicão de melancia.

O aposentado João Batista não tem pretensão comercial. “Eu me sinto com mais ar. Eu fumava muito e bebia café demais. Eu parei. E a ocupação agora. Eu venho pra cá e me sinto como se eu estivesse flutuando”, diz.

A ambição de João Batista é passar o que aprendeu para o Daniel, um garoto de dez anos que ele cria e considera como neto.

Fonte: Globo Rural

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