O dia seguinte, uma reflexão!

A campanha eleitoral de 2002 foi marcada pelo chamado Discurso do Medo. Não houve ruptura de contratos nem crise institucional. Assim a coisa andou.

A campanha que termina agora foi a Campanha do Ódio. O mote foi “desconstruir o oponente”, expressão “corretamente política” que na verdade significa caluniar, destruir por qualquer meio, verdadeiro ou não.

Não sei se o tom adotado pelos candidatos orientados por seus marqueteiros reverberou nas redes sociais ou se foi o tom das redes sociais que os marqueteiros imprimiram em seus candidatos. O fato é que houve um acirramento dos ânimos dos eleitores. Na Web, as discussões extrapolaram o campo dos debates entre adversários políticos e ganharam como protagonistas amigos e familiares, que entraram em conflito por conta de suas escolhas.

O fato inédito desta campanha foi o número de amizades desfeitas pela política. Quantas injurias foram proferidas sobre o candidato em quem não vai votar? Quantas vezes foi sentido o desejo de esganar o colega por discordar de suas opções políticas? Quantas relações afetivas se desmancharam derretidas pelo fogo da paixão política?  Será que valeu a pena? Foi bom para você?

É bem provável que em no futuro os dois candidatos por mais agressivos que tenham sido venham a se irmanar em torno de outro futuro candidato em outra eleição. Este tem sido o exemplo que se repetiu também nesta eleição unindo antigos desafetos políticos em busca de um interesse atual.

As pessoas se diferenciam por temperamento, interesse, habilidades intelectuais, buscas espirituais e modos de vida peculiares. Pessoas têm valores distintos, e mesmo aqueles que se identificam darão peso diferente aos valores que compartilham. Portanto é uma violência um grupo político qualquer tentar inculcar seus valores em todos os brasileiros.

Creio, espero e oro para que passada a eleição se abra o caminho do diálogo e que a vontade de acertar, aos poucos, triunfe sobre o desejo torpe de destruir.

Encontrei na internet esta história:

Certa vez um Sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Ele acordou assustado e mandou chamar um sábio para interpretasse o sonho.

– Que desgraça, Senhor! Exclamou o sábio. Cada dente caído representa a perda de um parente de Vossa Majestade!

– Mas que indolente, gritou o Sultão. Como se atreve a dizer tal coisa?

Então ele chamou os guardas e mandou que lhe dessem cem chicotadas. Mandou também que chamassem outro sábio para interpretar o mesmo sonho.

O outro sábio chegou e disse:

– Senhor, uma grande felicidade vos está reservada! O sonho indica que ireis viver mais que todos os vossos parentes.

A fisionomia do Sultão se iluminou e ele mandou dar cem moedas de ouro ao sábio.

Quando ele saia do palácio um cortesão perguntou ao sábio:

– Como é possível? A interpretação que você fez foi a mesma do seu colega. No entanto, ele levou chicotadas e você, moedas de ouro.

– Lembre-se sempre… respondeu o sábio, TUDO DEPENDE DA MANEIRA DE DIZER AS COISAS…

…E esse é um dos grandes desafios da humanidade.

É daí que vem a felicidade ou a desgraça, a paz ou a guerra. A verdade deve ser dita sempre, mas não resta a menor dúvida, mas a forma como ela é dita é que faz a diferença.

“Se não se pode falar bem de uma pessoa, é melhor que não se diga nada” Turnbull

“A palavra branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira” Salomão – Prov. 15.1

Ana Maria Machado, escritora, é a autora deste texto publicado no O Globo de 18-10-2014.

Vale a pena refletir sobre ele.

O Brasil define no dia 26 como vai ser governado nos próximos quatro anos. Num pleito emocionante, os favoritismos oscilam e as previsões são arriscadas. No entanto, dá para ter certeza de uns pontos que se apresentarão no dia seguinte e no mandato que começa no Ano Novo, vença quem vencer.

O primeiro é econômico: a conta vai chegar e todos teremos que pagar. Eleitores que votaram no governo ou que o rejeitaram. Os preços administrados e represados terão de ser corrigidos. Os subsídios arbitrários mostrarão seus efeitos. O baixo crescimento, a inflação estourando a meta, o descontrole fiscal deverão ser enfrentados. Seja quem for o eleito, terá de agir logo, sem empurrar com a barriga, se tiver um mínimo de senso de responsabilidade. Ao acabar a validade das imagens de propaganda eleitoral, será necessário encarar a realidade de que não se poderá fugir: tomar algumas medidas duras de ajuste para consolidar conquistas que são de todos.

O segundo ponto incontornável é que o país que emerge das urnas está dividido. Rachado em dois grandes grupos e subdividido em um sem-número de partidos políticos e facções. Mais que isso: é uma sociedade que se radicalizou numa campanha cheia de distorções, má-fé, mentira, agressões, ódio.

Vai ser necessário pacificar o Brasil. Em vez de desqualificar divergências, tentemos antes de mais nada, entender por que algumas pessoas que amamos, admiramos ou respeitamos votaram diferente de nós. As relações pessoais não podem se pautadas por superficialidades ressentidas e agressivas como as que têm sido visto, na permanente demonização de quem não pensa igual. Por mais que algumas opiniões nos espantem e até nos choquem, é possível reconhecer o que o outro lado fez de bom, seja plantando e enraizando a estabilidade na economia, seja podendo colher seus frutos na redistribuição de renda e nos programas sociais. Daqui para frente, há que fazer um esforço mútuo de entendimento na consolidação de denominadores comuns essenciais para o país crescer e os cidadãos continuarem melhorando. Manter a crise e as hostilidades não pode ser projeto de futuro de nenhum dos dois lados.

É indiscutível que teremos de caminhar juntos. O caminho coletivo que a nação vem construindo no último quarto de século incorporou conquistas que todos (excetuando os irresponsáveis dispostos a tocar fogo no circo) queremos ver consolidadas. Antes de mais nada, a democracia, com respeito às instituições, à Constituição, aos direitos humanos, à separação dos poderes, à liberdade de opinião. Em seguida, a estabilidade da economia, a responsabilidade fiscal, a possibilidade de desenvolvimento com regras claras. E também os programas de cunho social e a redistribuição de renda.

Além de manter tudo isso, temos de avançar muito em aspectos básicos cujas carências ainda são incrivelmente gigantescas, apesar de recente enxurrada de oba-oba estatística – educação de qualidade em todos os níveis, saneamento básico, segurança pública, saúde que realmente atenda o cidadão, transporte que não roube diariamente horas da vida de cada um chacoalhando num coletivo e tendo que vencer distancias enormes e engarrafamentos inacreditáveis. Em fim, todos aqueles motivos que levaram multidões às ruas em junho do ano passado.

Quem vencer as eleições jamais será perdoado se não tiver a inteligência de reconhecer o recado das urnas, como Marina Silva resumiu após o primeiro turno, ao afirmar que “não se pode tergiversar com o sentimento de 60% dos eleitores”. Essa maioria disse que não está satisfeita com o atual estado das coisas. Até a presidente, para buscar a vitória, promete mudar. Deseja-se a manutenção das conquistas econômicas e sociais, mas se exige a satisfação das necessidades essenciais reivindicadas nas manifestações de 2013, inclusive uma atitude ambiental cuidadosa, e novas formas de fazer política, que não transformem negociação em negociata.

O dia seguinte trará ainda uma oposição forte como não se viu nos últimos 12 anos, em que os tucanos ficaram encolhidos. Os mais moços podem não saber do que se trata. Mas, se o lulopetismo  for para a oposição, o governo não terá trégua, como FH não teve. E, se a escolha for pela reeleição da presidente, os últimos meses mostram que, pela primeira vez em muito tempo, o PSDB defende suas conquistas sem levar desaforo para casa o tempo todo, rabinho entre as pernas – e está conquistando aliados. Oposição faz parte da democracia e assim deve ser entendido. Não pode virar cruzada para destruir o adversário.

Por todo isso, cada um de nós bem que poderia, no dia seguinte, refletir alguns minutos para entender o que significam os votos diferentes do seu.

E tentarmos caminhar juntos, discordando, mas trocando ideias para vencer os problemas do país. Que não são poucos. Não precisamos acrescentar a eles intolerância, o ressentimento, a baixaria que busca se vigar.

Autor desconhecido

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